Terça-feira 29 Novembro 2022 - 4:47:53 am

Diretor da UNESCO no Iraque destaca retomada do diálogo em Mossul anos após lançamento de iniciativa para reconstruir cidade destruída pela guerra


Por Pablo Augusto

ABU DHABI, 25 de novembro de 2022 (WAM) – 'Revive the Spirit of Mosul' é uma iniciativa lançada em 2018 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). O órgão da ONU a define como uma "resposta à recuperação de uma das cidades icônicas do Iraque". Mossul enfrentou uma ocupação de três anos (2014-2017) pelo autoproclamado Estado Islâmico, que chegou ao fim com 80% da Cidade Histórica destruída – um patrimônio que, segundo a UNESCO, reflete o intercâmbio de valores de tolerância e coexistência por muitos séculos.

O historiador iraquiano Omar Mohammed, pesquisador da Universidade George Washington, conhecido inicialmente como o blogueiro anônimo 'Mosul Eye', que costumava informar o mundo sobre a vida sob o Estado Islâmico, destaca que Mossul é uma cidade onde judeus, cristãos, yazidis e muçulmanos de diferentes seitas viveram juntos. "Uma cidade conhecida por sua diversidade única", destaca.

A UNESCO, que afirma que Mossul é "um local estratégico devido à sua encruzilhada e ponte entre norte e sul, leste e oeste" há milênios, defende que foi essa diversidade que tornou a cidade alvo do Estado Islâmico. Abalada pela guerra, um projeto de reconstrução teve que levar tudo isso em consideração. Com base em três pilares – herança, vida cultural e educação, a iniciativa "Revive the Spirit of Mosul" foi financiada por 15 parceiros. Entre eles, os Emirados Árabes Unidos, que contribuíram com US$ 50 milhões, e a União Europeia.

Inicialmente, a contribuição dos Emirados Árabes Unidos para a reconstrução do patrimônio cultural de Mossul consistia na restauração e reconstrução de marcos históricos, como a Mesquita Al-Nouri e seu Minarete Al-Hadba de 45 metros, construído há mais de 800 anos. No entanto, um ano depois, os Emirados Árabes Unidos e a UNESCO renovaram a colaboração para incluir o apoio à reconstrução da Igreja Al-Tahera, considerada pela UNESCO "um símbolo icônico tecido na história de Mossul", e a Igreja Al-Saa, também conhecida como Igreja de Nossa Senhora da Hora, ambas construídas no século XIX.

Ao assinar o acordo, Noura bint Mohammed Al Kaabi, ministra da Cultura e Juventude dos Emirados Árabes Unidos, disse que "estamos muito honrados em assinar esta parceria com a UNESCO e o povo do Iraque para levar nossos esforços ainda mais para ajudar a reconstruir Mossul e reviver o espírito de convivência e coesão social".

Anos após o lançamento da iniciativa, Paolo Fontani, diretor da UNESCO no Iraque, declarou, em conversa com a Agência de Notícias dos Emirados (WAM), que o diálogo está acontecendo em uma cidade que sempre foi vista como um lugar simbolizando trocas, diferentes culturas e etnias convivendo, de acordo com ele. "Então essa é a ideia de reviver o espírito de Mossul. É reviver a liberdade do povo de Mossul e trazer de volta suas identidades trabalhando juntos, indicando que a força do mal não vencerá e que a cultura sempre será e continuará sendo parte de nosso patrimônio", afirma Fontani. Particularmente destruída pela guerra, a reconstrução da cidade pode significar um "símbolo de renascimento para o Iraque" e para o mundo, completa Fontani.

A iniciativa, impactada pela pandemia de COVID-19, caminha para a fase final. O chefe da UNESCO no Iraque lembra que a reconstrução da Mesquita Al Nouri, Minarete Al Habda, Igreja Al-Saa'a e Tahera está em andamento. O processo se encontra em estágios variados, dependendo da gravidade dos danos. Fontani acredita que a maioria dos monumentos estará concluída até o final de 2023. O Minarete Al Habda levará alguns meses a mais. “Estamos construindo com as mesmas técnicas, com os mesmos materiais, com formas de reconstruir que vão manter o valor do que estamos fazendo”, destaca.

Enquanto a reconstrução segue, a sociedade caminha para a reabilitação, segundo Omar Mohammed. O historiador afirma que a recuperação de Mossul é lenta, mas avança. “O tecido social está se recuperando, está em processo de re-desenvolvimento ou desenvolvendo sua narrativa de convivência", ele pontua. Mohammed citou as visitas do Papa Francisco e do presidente francês, Emmanuel Macron, como importantes no processo de reabilitação e manifestou esperança de uma visita da ministra da Cultura dos Emirados Árabes Unidos, Noura Al Kaabi, que, segundo ele, tem uma conexão direta com Mossul e sua recuperação.

Anos depois da libertação da cidade numa batalha que matou milhares de pessoas, outros sinais confirmam a sua recuperação. Paolo Fontani lembra que o número de alunos matriculados na Universidade de Mossul aumentou ao compartilhar uma conversa com o chefe da instituição. "Ouvi-lo me dizer que a universidade antes da guerra tinha 37 mil alunos e que agora eles têm o dobro disso, me dizendo quantos cristãos ou yazidis estão agora na casa dos milhares; antes eram dois dígitos", diz Fontani em tom de entusiasmo.

Criação de empregos e retomada

"Revive the Spirit of Mosul" teve um impacto multidimensional e tangível na cidade. O representante da UNESCO no Iraque menciona que mais de 1.700 pessoas foram treinadas e mais de 3.500 foram empregadas como parte da iniciativa. “Estamos trabalhando em uma área específica, na qual você vê as coisas voltando; não estamos apenas fazendo monumentos, mas também casas”, afirma o italiano. Fontani lembra ainda que algumas organizações culturais começaram a trabalhar em Mossul, principalmente na Cidade Histórica. "Com certeza, há atividade, inclusive econômica", salientou.

Essa atividade representa uma mudança em relação ao cenário que Paolo testemunhou ao chegar a Mossul em 2019. "A primeira vez que cheguei a Mossul, havia silêncio; provavelmente foi a coisa mais incrível, foi o silêncio; não havia carros, não havia gente, ninguém. Tudo foi destruído e o silêncio era total", afirma. "Agora, ao longo dos anos, quando volto para a parte ocidental de Mossul, a parte histórica está cheia de gente, tem trânsito, talvez trânsito demais, mas há movimento, lojas abertas, mercados abertos, bazar , pessoas reconstruindo", diz ele.

Fontani acredita que o fato de um órgão como a UNESCO ter conseguido atrair recursos significativos para investir em patrimônio e cultura demonstra que eles podem se tornar uma parte vital do setor de desenvolvimento de um país. "Na Europa ou no mundo, a cultura às vezes representa 6% do emprego, 3% do PIB, então estamos mostrando que isso também pode acontecer no Iraque; que a cultura pode e deve se tornar um motor de desenvolvimento e também é muito estável para o desenvolvimento porque as pessoas estão trabalhando em seu próprio patrimônio, em sua própria identidade e isso é muito importante", afirma.

Omar Mohammed enfatiza que a recuperação de Mossul não é importante apenas para a população da cidade, mas para o resto do mundo. O historiador espera ver sua cidade novamente se tornando um centro cultural e econômico, um espaço marcado pela convivência e pelo pluralismo. "O renascimento do patrimônio de Mossul revelará as chaves para a resistência da humanidade contra a violência e a divisão. Revelará que a única maneira de viver juntos é acreditar na diversidade como um mosaico, onde cada peça distinta é parte integrante da revelação do todo, onde qualquer peça que faltar, no final, perderá todo o seu destino compartilhado", aponta Mohammed.

A recuperação do tecido social de Mossul, cidade cujo nome significa "ponto de ligação" em árabe, levará mais tempo do que a reconstrução de paredes, mesquitas e igrejas. Mas, como nos lembra o diretor da UNESCO no Iraque, o diálogo já está presente. E Fontani também está convencido de um futuro melhor pela frente.

Resumindo a iniciativa, Paolo Fontani destaca a importância do apoio dos parceiros que abraçaram a ideia. “Acho que está muito claro que tudo isso não teria acontecido sem o grande apoio dos Emirados Árabes Unidos e de outros doadores – um pedido de ajuda que foi bem recebido, que também nos deixa orgulhosos e, claro, cientes da responsabilidade que entregamos", conclui.

https://wam.ae/en/details/1395303105623

P.